Como advogar com ética?

“Ela jogou muito bem […] Foi um grande jogo para ela. Estou realmente feliz em vê-la jogando bem. O céu é o limite para ela”. – Venus Williams [foto e fonte em globoesporte.globo.com]

Cori não somente se inspirou em jogadoras mais experientes como Venus e sua irmã Serena, como também reconheceu o importante papel que essas atletas tiveram na sua formação. Venus, apesar de ter perdido a partida, reconheceu a grandeza, o bom desempenho e o potencial da jovem jogadora em início de carreira. Esta é uma lição grandiosa para nós, advogadas e advogados, aprendermos com essas atletas.

No último sábado, 01/07/2019, a tenista Cori Gauff venceu uma partida eliminatória rumo ao maior prêmio da sua modalidade esportiva, jogando contra um de seus ídolos, Venus Williams, uma das maiores jogadoras de tênis do mundo.

Vejo muitos jovens advogados profundamente decepcionados e com expectativas frustradas em relação ao exercício da profissão, visto que muitos colegas, eventualmente pessoas em quem eles se inspiram, deixam a desejar no que diz respeito à ética e à boa relação entre advogados.

Alguns jovens advogados decidem abandonar a carreira, por entenderem que a advocacia (como veem sendo praticada) não corresponde aos seus valores pessoais.

Outros se veem totalmente tolhidos por advogados que já exercem a profissão há um bom tempo, mas parecem temer a chegada de novos colegas e entram em disputa até mesmo por um serviço mais simples como a diligência (que é uma ótima forma para jovens advogados aprenderem na prática).

Seria muito positivo ver os colegas mais experientes incentivando os colegas mais jovens, acreditando-lhes os devidos méritos por suas conquistas, reconhecendo que podem aprender com uma geração mais nova de profissionais e sobretudo inspirando outros com ética e altruísmo.

Diferentemente da partida de tênis, não precisamos perder para que outro ganhe. Ainda que estejamos representando nossos clientes judicialmente, o indeferimento em uma causa ou uma sentença desfavorável não representa a derrota profissional em relação ao patrono da outra parte, nem a eliminação de determinado advogado na sua acensão profissional.

Sim, somos mais de um milhão de advogados em todo o país, mas a aparente concorrência não pode nos impulsionar a agirmos como quem está a espreita de uma oportunidade, buscando o nosso sucesso às custas do infortúnio do cliente e por vezes, às custas de colegas. Agindo assim, o advogado se posiciona como um abutre à espera do pior resultado.

É triste reconhecer que muitos percebem, quase que automaticamente, a profissão advocatícia como sendo algo de negativo, ilegítimo, que gera desconfianças. Não são poucas as vezes em que ouço algo como “você é advogada? preciso tomar cuidado com o que falo”.

Por outro lado, vejo colegas que até tentam agir corretamente, mas acreditam que não podem cumprir os valores éticos da advocacia, ou a ética na divulgação dos seus serviços, pois ninguém estaria “disposto a pagar esse preço” e acabam infringindo o código de ética no que diz respeito à captação de clientela. Isso nos leva a uma outra reflexão. Porque temos tanta dificuldade em expressar para nossos clientes o valor daquilo que entregamos?

Certa vez fui a um consultório médico, cujo valor me custou mais da metade do salário mínimo à época, apenas para ouvir o médico dizer, em alguns poucos minutos de consulta, que estava tudo bem. Como estava de viagem marcada, investir aquele valor me trouxe alívio, independentemente do valor pago.

O que acontece dentro da nossa profissão? O mais simples serviço ou atendimento parece “caro” aos olhos do cliente, mesmo que represente 10% ou 20% do salário mínimo. Advogados investiram pelo menos cinco anos para sua formação, fora o preparo para o exame de ordem e as demais especializações, mestrados, doutorados e assim por diante. Assim como na medicina, trabalhamos majoritariamente com problemas das pessoas ou tentando prevenir esses problemas ou buscando resolvê-los. Em algum momento, no entanto, falhamos na nossa comunicação com a sociedade, quanto ao nosso papel enquanto defensores dos direitos dessas pessoas e na transformação que podemos ajudá-las a alcançar.

O que podemos fazer, ou melhor, o que estamos fazendo para mudar isso?

Precisamos enxergar os nossos clientes como pessoas que protegemos, por quem somos chamados a defender. Quer seja uma pessoa física ou uma pessoa jurídica, lidamos com seres humano, não com um número do cadastro nacional.

Se para você, seus clientes representam apenas um CPF ou CNPJ a ser declarado no imposto de renda como sua fonte pagadora, é assim que você vai tratá-lo, como uma fonte de recursos, de onde você buscará obter cada vez mais benefícios para si próprio. Profissionais da advocacia que atuam dessa maneira reforçam o estigma social de que advogados alcançam sucesso com a “desgraça aheia”.

Em mais um exemplo por analogia, como patronos, defensores de nossos clientes, agimos de certa forma como pais em relação aos filhos. Normalmente, nenhum pai ou mão dirá ao filho: “vai lá, bate naquele garoto, puxa o cabelo da sua amiga, você é mais forte que eles, você vai ganhar fácil.” Nenhuma pessoa em sã consciência incita alguém por quem seja responsável a entrar em uma briga. Eu e você, como advogados, não devemos (nem podemos) instigar o cliente a judicializar um problema que encontraria solução de outra maneira, em geral, menos onerosa para o cliente.

Se, por outro lado, os filhos são provocados, o pai ou a mãe fará tudo o que estiver ao seu alcance para proteger e buscar reparação daquela ofensa. Aí sim, como representantes, buscaremos, com toda a diligência, por todos os meios possíveis alcançar a justiça que lhes seja garantida por direito.

Consegue ver a diferença em perceber o seu cliente como fonte pagadora ou como ser humano?

Quando aprendermos a trabalhar assim, e a comunicar os valores da nossa atividade, alcançaremos o devido reconhecimento que esta tão honrosa profissão nos proporciona. Tanto diante da sociedade, quanto diante dos nossos clientes e diante dos nossos pares, sejam colegas mais experientes, sejam os jovens advogados. Cabe a cada um de nós fazer a nossa parte na busca de uma advocacia mais ética, honesta, justa e colaborativa.

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